terça-feira, 30 de dezembro de 2025

POEMA NUA

NUA, de Saul Dias * . I Nua como Eva. A cabeleira beija-lhe o rosto oval e flutua; o corpo é água de torrente... . Eva adolescente, com reflexos de lua e tons de aurora...! . Roseira que enflora...! . Desflorada por tanta gente... II Teu corpo, mal o toquei... . Só te abracei de leve... . Foi todo neve o sonho que alonguei... . Asas em voo, quem, um dia, as teve? . Os sonhos que eu sonhei! . III Jeito de ave e criança, suave como a dança do ramo de árvore que o vento beija e balança! . Nave de sonho no temporal medonho silvando agoiro! . Quem destrançou os teus cabelos de oiro? . IV Corpo fino, delicado, sereno, sem desejos... . Tão macio, tão modelado... . Beijos... Beijos... Beijos... . V No meu sono ela flutua a cada passo... . Nua, riscando o espaço numa névoa de outono... . Apenas nos cabelos um azulado laço... . E assim enlaço a imagem sua... . in "Sangue" . * pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira (Vila do Conde, 1 de Novembro de 1902 — 17 de Janeiro de 1983), poeta e artista plástico, irmão de José Régio.